CRONOLOGIAS INVENTADAS
Da temporada de alta-costura em Paris à Fenearte, as histórias e reflexões que marcaram as últimas semanas
CARTA
A gente passa boa parte da vida tentando aprender a lidar com o tempo. Crescemos ouvindo que existe uma hora certa para tudo: para ser criança, adolescente, adulto. Como se viver fosse apenas cumprir um cronograma de obrigações invisíveis. O problema é que quase nunca nos ensinam o que fazer com aquilo que ficou para trás.
Às vezes olho para mim e penso que perdi tempo demais. Tempo na infância que não tive. Tempo numa adolescência atravessada por ausências. Tempo imaginando quem eu seria se tudo tivesse acontecido no momento certo. E, quando finalmente percebo isso, descubro uma ironia: tenho apenas 29 anos.
Mas foi-se o tempo de acreditar que a vida pode ser reorganizada olhando para trás. Não existe infância para recuperar nem atalhos para reescrever os caminhos que inventei enquanto imaginava uma versão melhor de mim mesmo. Talvez exista apenas o agora, e o privilégio de entender que até as perdas produziram quem escreve esta carta.
Em tempo: talvez esse seja justamente o motivo do atraso desta newsletter porque precisei viver antes de escrever.
Passei os últimos dias atravessando diferentes maneiras de experimentar o tempo. O tempo paciente da Alta-Costura, que transforma centenas de horas em uma única roupa. O tempo do artesanato, que faz da repetição um saber e da técnica uma herança. O tempo suspenso de Fernando de Noronha, onde relógio algum parece fazer muito sentido. E o tempo inquieto do Recife, cidade que insiste em provar que cultura nunca é uma peça de museu.
Foi assim que percebi que todas essas experiências falavam da mesma coisa. Algumas pessoas contam o tempo em minutos. Outras, em coleções. Há quem o conte em pontos de bordado, em receitas, em viagens ou em lembranças. Passei tanto tempo tentando recuperar o que ficou para trás que quase não percebi o privilégio de viver o que estava acontecendo diante dos meus olhos. Agora eu quero cada fragmento de tempo!
HISTORINHAS DE GENTE GRANDE
De um lado, entre os dias 7 e 10 de julho, o mundo da moda voltou seus olhos para a temporada de Alta-Costura de inverno parisiense. De uns tempos para cá, as noções que temos sobre moda parecem cada vez menos interessadas apenas em roupa. Os sonhos voltaram a ocupar espaço, mas talvez precisem ser sonhados acordados.
Os principais desfiles da temporada discutiram muito bem tudo isso. Na Chanel, Matthieu Blazy encontrou na própria vida de Gabrielle Chanel uma forma de desmontar a ideia do “felizes para sempre”. Entre listas de tarefas domésticas, contos de fadas, uma trilha sonora que atravessava fantasia e realidade e uma noiva que sequer encerrou o desfile, a coleção parecia perguntar se crescer não seria justamente abandonar as histórias que inventaram para nós.
Aqui nesse vídeo, eu abordei um pouco mais sobre a conversa que a coleção criava:
Jonathan Anderson escolheu outro caminho para seu segundo desfile de couture na Dior. Em vez de traduzir literalmente a obra de Lynda Benglis, apropriou-se de sua maneira de pensar a matéria. As roupas pareciam repetir os mesmos verbos presentes nas esculturas da artista: escorrer, dobrar, expandir, solidificar. É que a moda e arte compartilhem menos substantivos do que imaginamos, sendo o que permanece são os verbos.
Da turma dos que sonham alto até demais, daqueles que correm o risco de entrar no mundo lúdico e não mais voltar, Daniel Roseberry parece cada vez mais confortável dentro do próprio universo. O problema é que o surrealismo, quando vira fórmula pronta e já ficamos esperando o que observar, deixa de surpreender. Continua extraordinário como imagem, mas cada vez menos interessante como descoberta.
Schiaparelli Haute Couture / reprodução
Quem finalmente parece ter descansado em paz foi Cristóbal Balenciaga. Depois de anos sendo assombrado pelo espírito provocador de Demna Gvasalia, a maison reencontrou parte de sua própria memória pelas mãos de Pierpaolo Piccioli. Os volumes monumentais continuam ali, mas agora colocados a serviço da roupa. Depois de tanto tempo discutindo o sistema da moda, a Balenciaga voltou a discutir aquilo que sempre fez melhor, que é a costura. As viúvas de Balenciaga finalmente tenham encerrado o luto.
QUEM TEM MEDO DO REBELDE FASHION?
Quem agora encontrou um nome para construir futuro foi a Jean Paul Gaultier. Depois de cinco anos convidando diferentes estilistas para reinterpretar seu repertório, a maison encerrou esse ciclo e anunciou o holandês Duran Lantink como diretor criativo. Conhecido por transformar upcycling, proporções radicais e novas maneiras de pensar o corpo em uma linguagem autoral, Lantink assume a missão de conduzir tanto a alta-costura quanto o retorno do prêt-à-porter da casa. E chega justamente para ocupar um espaço onde a irreverência que sempre foi parte da própria identidade de Jean Paul Gaultier.
Jean Paul Gautier Haute Couture / reprodução
É como se um jovem rebelde tivesse assumido o barco fundado por Gaultier. Os experimentos com o corpo e com a roupa ganham outro tom. O próprio Lantink afirma olhar para o passado para imaginar um futuro possível, e talvez esse seja o maior acerto de sua chegada. Em vez de reproduzir um repertório conhecido, ele prefere tensioná-lo, fazendo da herança um ponto de partida sem ter obrigação alguma disso ser um lugar de conforto.
Tudo bem que amamos a moda que serve ao belo de Pierpaolo Piccioli, mas a estranheza também ocupa um papel importante na história da moda. Foi assim com Rei Kawakubo, Martin Margiela e com o próprio Jean Paul Gaultier em diferentes momentos de sua trajetória. Nem toda moda existe para oferecer respostas. E essa pergunta de Duran foi das boas.
NÃO MEXE NO QUE TÁ QUIETO
Senhor Giorgio Armani deixou talvez o legado mais difícil de herdar da moda contemporânea. Não porque seja impossível desenhar como ele, mas porque é quase impossível continuar parecendo Armani sem repetir Armani.
Coube à sua sobrinha, Silvana Armani, que trabalhou ao lado do estilista por mais de quatro décadas, assumir essa responsabilidade sem a tentação de reinventar aquilo que nunca precisou ser reinventado. Em uma temporada marcada por estreias masculinas, foi justamente uma mulher quem melhor compreendeu outra mulher.
Armani Privé Haute Couture / Filippo Fior / Gorunway.com / reprodução
Mais da metade dos 57 looks apresentados surgiu sobre calças. Um detalhe aparentemente banal, mas que ajuda a responder qual o papel da Alta-Costura hoje. Bom, penso que continue sendo exatamente o mesmo de sempre. Não é preciso exercer o papel sobre como uma mulher deve existir, mas oferecer possibilidades para que ela escolha como deseja ser vista.
Na família dos longos dramáticos, dos bordados minuciosos e da alfaiataria impecável, Armani Privé continua nos lembrando que elegância tem sim o seu lugar de fala no mundo barulhento. Ao contrário de tantas coleções que exigem que a mulher interprete uma personagem, Silvana está bem mais interessada em vestir circunstâncias. Essa sim é a herança mais difícil de preservar.
ENTRE BARROS, COUROS, TECIDOS E BORDADOS
Desde que me mudei para São Paulo, no começo de 2024, descobri que voltar ao Nordeste nunca é exatamente voltar. A distância tem esse efeito curioso de nos devolver o olhar da primeira vez. E, com ele, a possibilidade de descobrir aquilo que antes parecia tão familiar a ponto de passar despercebido.
Foi exatamente isso que aconteceu na minha segunda visita à Fenearte, a maior feira de arte popular e artesanato da América Latina.
Mas não apenas dentro dos corredores do pavilhão. A feira parece transbordar seus próprios limites. Ela continua pelas ruas do Recife, nas fachadas art déco, nas referências sacras, na gastronomia, nas novas subculturas que ocupam as periferias e nas tantas formas de produção cultural que convivem na mesma cidade sem jamais caberem em uma única definição.
Nesses paralelos dos dois mundos criativos que insisto (e acho uma delícia habitar), fiquei me perguntando quem decidiu que alta-costura e artesanato pertencem a universos diferentes?
Afinal, ambos nascem do mesmo ato de celebração do saber fazer, claro que em escalas diferentes, mas com o mesmo preciosismo. A alta-costura celebra o ateliê, já o artesanato, a oficina. Ambos dependem do tempo, da repetição, da técnica, do erro, da transmissão de conhecimento entre gerações e da sensibilidade.
Enquanto caminhava entre rendeiras, ceramistas, mestres da madeira, do couro, do barro e de tantos outros ofícios, me dei conta de que muito daquilo que hoje admiramos nas grandes maisons europeias também existe por aqui. A diferença é que, durante muito tempo, fomos ensinados a chamar um de luxo e o outro de artesanato.
É impossível não imaginar o quanto a moda ainda teria a aprender se olhasse para movimentos como esse com o mesmo interesse que dedica aos grandes acontecimentos internacionais. Não apenas pelo reaproveitamento de materiais, pela inteligência construtiva ou pelas possibilidades de inovação, mas pela compreensão de que tudo faz parte de uma mesma veia criativa, apenas com acessos e condições diferente.
Posso apostar que um mestre artesão pode aprender a fazer um couture, mas dificilmente o couturier pode saber fazer o que uma mão artesanal sabe. A técnica pode existir, mas nesses trabalhos que a alma é traduzida com as mãos, só contam boas histórias quem têm vivência.
No fim das contas, Paris e Pernambuco estão muito mais próximos do que imaginamos. Basta olhar com carinho.
LOOKS SEM FRONTEIRAS
*conteúdo patrocinado
Traduzir uma artista em roupa talvez seja um dos exercícios mais complexos da moda contemporânea. E quando essa artista é a Anitta? Porque como transformar em roupa alguém cuja principal característica é justamente nunca caber em uma única definição? Bom, parece que H&M Studio entendeu isso muito bem.
Para sua mais recente performance internacional, a cantora se uniu com a H&M Studio partiu de um processo colaborativo para criar um look que refletisse essa personalidade de forma genuína. Estamos falando de uma mulher ousada, impactante e confiante. O resultado foi um figurino que equilibra sensualidade e força, reunindo elementos esportivos, recortes estratégicos, proporções amplificadas e o brilho necessário para dialogar com a potência do palco.
À frente da criação esteve Kathrin Deutsch, designer da H&M Studio, responsável por transformar conceitos em construção visual. Já o styling assinado por Janelle Miller, colaboradora de longa data de Anitta, ajudou a garantir que cada escolha estivesse alinhada à narrativa e à presença da artista em cena.
Quando construída de forma colaborativa, a moda nos mostra caminhos além do vestir. Assim reforçamos identidades individuais e pensamos no coletivo colaborativo como um futuro possível além das fronteiras.






Que texto show, além do conteudo de moda, a introdução e reflexão sobre o tempo me lembrou uma música que eu sempre me emociono ao ouvir.